— Acorde, papito!

— Natália, é possível acordar?

— Acorde papito! Onde estava?

— Esta sonhando. O que existe além do sonhar?

— Existe a vida, papito. Sonhamos na vida e vivemos nos sonhos. O que sonhava?

— Sonhava que você existiria e viria me acordar…

— Pois lhe acordei exatamente por isso: para provar que o imaginário esbarra no real, lhe alimenta, lhe transmuta. Que importa se existo ou não?, desde que esteja aqui e agora? O mais são imperfeições intelectuais.

— Convincente, ao menos para quem está acordando. É (mesmo) possível acordar?

— Desde que dormir seja algo possível….

— Por vezes é o único que é viável; dormir, para não acordar mais. Por vezes é o imperativo único; acordar, para não dormir — o “sono é o ensaio da morte. Acordar, o ensaio da vida.

— Por isso o acordei, papito! A lua não é cheia enquanto o sol não a ilumina e a Terra não a esconde. Tudo tem estados o ar, a água… E não são diferentes do que sua essência lhes permite: água, ar.

— A vida então tem estados…

— Estados de ser:  carruagem ou abóbora. Toda lua tem sua face oculta. Sonhar ou viver: um pode ser o estado alternativo do outro.

— Boa noite, Natália.

(23/01/88 – 2 horas)

 

 

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