Quando era pequeno tinha medo de bicho papão, que não sabia o que era, mas sabia que não era coisa boa.
Ir dormir – e ficar no quarto no escuro – era uma temeridade. O tal bicho papão poderia aparecer – e as consequências seriam funestas.

Cresci. E aprendi que bicho papão, ao menos naquela acepção infantil, é coisa que não existe.

Mas descobri, também, que tem muito bicho papão vivo. Que se alimenta da vida de outros seres humanos. São vampiros de existências que lhes cercam: drenam energias do trabalho de terceiros, “papando-as”. E vivem disso: sua existência não é fruto do seu próprio trabalho. São seres parasitários, que grudam na vida de terceiros, que drenam as energias que estes produzem.

Fiquei surpreso, mais recentemente, especialmente depois de todos eventos que antecederam o impeachment de Dilma e de todas as descobertas feitas pela operação Lava Jato, que o Congresso Nacional, deputados e senadores, é um antro incomensurável de bichos papões.

Raríssimos, ali, estão a serviço de seus eleitores – e comprovadamente estes são a exceção que corrobora a regra: estão a serviço de interesses pessoais que visam facilitar a vida de algumas empresas que, em contrapartida, os remuneram regiamente pelas falcatruas efetuadas.

Recebem polpudos salários e benefícios para ficarem criando e aprovando leis, medidas provisórias, isenções fiscais, ganho de licitações, aprovação de empréstimos com dinheiro público do BNDES e ou de bancos oficiais – e cobrando “honorários” por sua “consultoria especializada”.

Sem nenhuma garantia de contrapartida efetiva para a população, ou de retorno de investimentos para os cofres públicos que, essencialmente, guardam e empregam o dinheiro dos impostos que todos nós pagamos.

Com isso, por tabela, nos tornamos acionistas de falcatruas que nunca cometemos e que jamais aprovaríamos. Mas os bichos papões nos representam – e tem esse direito, ou pior, esse poder.

Desses bichos eu tenho medo, muito medo. Mais do que tinha daqueles que imaginava em minha tenra infância.

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