Primeiro, salário não é renda.

Salário é a contrapartida de um trabalho que você executa. Se não há trabalho, não há salário.

Renda acontece sobre patrimônio: algo que você aluga, um dinheiro que você investe. Onde, mesmo sem trabalhar coisa alguma, há rendimento.

Agora, se você trabalha, não há o menor sentido em tributar renda. Renda é o usufruto de um patrimônio. Algo que você acumulou, que não foi usado em consumo.

Se você tem salário, então compra coisas. Se compra coisas, paga impostos. Se não compra, investe. Se investe, paga impostos sobre as rendas dos investimentos. Tão simples assim.

São coisas que uma criança a partir de 4 anos de idade pode entender perfeitamente.

Mas a legislação brasileira não entende assim: salário é renda. E quanto mais alto, maior o tributo.

Na nossa vida, tudo é presumido. Então a Receita Federal presume que se você ganha acima de R$1900 é um felizardo – e merece pagar imposto de renda.

E o imposto aumenta até quase 30% à medida em que seu salário aumenta.

Isso é muito louco, pra falar a verdade.

Há um município (Belágua) no Brasil em que a renda média é menor que R$200. Lá o pessoal não deve nem saber que existe imposto de renda. E quase todos votaram na Dilma, porque ela dá Bolsa Família, multiplicando por 2, 3 ou 4 a renda média da família.

E há grandes centros, como São Paulo, Rio, BH, Curitiba – onde o simples valor de um condomínio chega a ser maior que R$ 1000. As despesas de educação em Belágua são infinitamente menores que em qualquer outra cidade com mais de 100 mil habitantes.

Mas para o imposto de renda não: todos moram na mesma cidade teórica. Todos tem o mesmo desconto padrão. Todos estão sujeitos às mesmas alíquotas e aos mesmos níveis de desconto. Todos vivem na ilha da fantasia.

Pior: os níveis de desconto estão defasados pelo menos em 70% em relação à inflação dos últimos 10 anos, Isso, na prática, mostra que se pode descontar do imposto de renda muito menos do que se descontava 10 anos atrás. Ou seja: todo mundo pagando muito mais imposto.

E vem a vagabunda, a presidanta, no primeiro de maio de 2016, num acinte à inteligência do brasileiro (mais um), dizer que promoveu um reajuste de 5% nos valores de desconto, quando a defasagem é pra lá de 70%. Vendendo isso como benefício para o trabalhador.

Uma reforma verdadeira seria acabar com imposto de renda sobre salário.

Uma reforma honesta seria adequar os descontos pela inflação real.

Uma reforma justa seria adequar as tabelas pela realidade dos municípios. São Paulo não é Belagua e Belagua não é São Paulo.

Mas a Receita Federal não quer saber disso. E acha que todos vivemos, como ela, na ilha da fantasia. Com a diferença de que nós pagamos e eles recebem. Com todos direitos legais. O que é, no mínimo, triste. Prá lá de errado.

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