queria te ligar, mas não é possível.

o espaço está dominado, tomado.

já é quase uma da manhã, (na tv) já acabou o cacete do vídeo, agora é o prêmio dos músicos .

fico assim nesse estado: algo como estar de castigo.

não posso te ligar.

-x-

passei um cagaço estúpido… liguei e desliguei antes de atenderem, de madrugada mesmo;

-x-

ficou um bocado de você em tudo quanto é lugar (de sampa).

tenho sempre a sensação que vou encontrá-la, onde quer que eu vá.

-x-

tento racionalizar.

tento me centrar: tenho 33 anos,

me digo que não é possível.

você tem mais de 33,

também não seria possível.

entre o seria e o que é, uma lacuna enorme.

um grande kanyon.

-x-

as coisa são o que são.

que estúpido.

fazer média de vida: me sinto doente mesmo.

tá tudo errado. tá tudo insincero por aqui, neste casamento.

me lembro… era um pacto temporário… enquanto desse certo.

anos atrás já não dava;

mas insisti.

foi aí que me corrompi, me tornei corrupto, dentro de mim.

que loucura.

-x-

ontem me senti sozinho, tão sozinho, tão só.

-x-

me sinto habilitado a viver, sim, em sonhos e visões desvairados.

vejo tua casa.

vejo teus filhos.

chego.

lhes dou um abraço.

apenas digo que cheguei.

e vim para má-los também;

e eles (loucura) encaram tudo muito naturalmente.

absurdo, sei.

por favor deixem-me sonhar: sonhar é bom.

 

1988

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