Depois que saí de São Paulo e vim morar a 40 km de seu centro, entrei num outro ritmo de vida. A princípio achei não iria me acostumar facilmente, saí de uma megalópole para literalmente uma aldeia, Aldeia da Serra.

Aqui, costumo brincar, incomodam o silêncio noturno, o farfalhar das folhas de imensas árvores que chegam a produzir um barulho parecido com ondas de mar, o canto de pássaros em especial ao amanhecer e entardecer. A poluição sonora existe sim, mas fica por conta de cortadores de grama ou de pequenos caminhões e tratores que fazem serviços de recolhimento de lixo ou folhas e galhos que caem sobre as ruelas e terrenos.

Nesta aldeia não existe trânsito e é possível estacionar em qualquer lugar a qualquer hora. Não há flanelinhas, mendigos, faróis, pedintes de qualquer espécie. As casas ficam em condomínios fechados, com segurança permanente. Não tranco a porta de casa, exceto quando eu e minha esposa estamos dentro dela e queremos manter certa privacidade, evitando uma visita inesperada das pessoas a quem demos autorização para nos visitar no condomínio.

A contrapartida é saber viver num local onde não existe cinema, teatro, shopping. Há dois centros comerciais, com poucas opções de restaurantes e lanchonetes, uma única e gigante padaria, um único posto de gasolina, poucas farmácias, duas academias, enfim, conta-se tudo nos dedos de uma das mãos. Tudo é muito vigiado, mesmo fora dos condomínios.

As casas nos condomínios são grandes e em geral tem suas piscinas, fazendo com que cada casa seja um pequeno clube particular. As pessoas saem pouco, somente quando tem de comprar algo, havendo pouquíssima interação social. Um ano vivendo aqui, não fiz nenhuma amizade nova e alguns pouco conhecidos como alguns atendentes da padaria, que é o local que mais frequentamos. Cada um vive sua vida e interage pouco com a dos demais (seria melhor dizer praticamente sem interagir com a dos demais).

Quando ligamos A TV, vemos as notícias de São Paulo: crimes, enchentes, acidentes gravíssimos, assaltos, assassinatos e centenas de dramas do cotidiano que uma megalópole pode produzir com facilidade a partir de seus quinze milhões de habitantes. A diferença, vivendo aqui, é que você muda o canal da TV e vai ver outra coisa qualquer, esquecendo o mundo lá fora. Ou simplesmente desliga, vai até a padaria comprar pães, sabendo que nada disso existe por aqui.

Você nota, no entanto, que a maioria dos bem sucedidos na vida que aqui moram na verdade trabalham em São Paulo: vão e voltam todos os dias, passando por congestionamentos magistrais, tanto maiores quanto mais próximo da cidade grande. Esses são estressados na direção: saem daqui correndo e voltam para cá também correndo, mais ainda. Quando voltam, ainda estão naquele pique de trânsito de SP, querendo ultrapassar todo mundo, mesmo na serra de acesso à Aldeia, que é bem estreita e perigosa. Aqui dentro da Aldeia ainda dirigem com velocidade, encostam no seu carro, querendo sempre passar na sua frente – sem qualquer necessidade disso. Dentro dos condomínios a pressão é bem menor, há mais vigilância, mesmo assim você vê um ou outro dando uma corridinha. Sem a menor necessidade: mesmo andando bem devagar, em dois ou três minutos você está fora da Aldeia, qualquer que seja a direção que tome. Ou chega em qualquer ponto da Aldeia.

Apelidamos a Aldeia de Beverly Hills. Perto de tudo o que há por aqui (ou fora daqui), na verdade, a Aldeia é uma Ilha da Fantasia.

O fato é que eu e a esposa nos acostumamos com facilidade à Aldeia e, se temos de ir a São Paulo por qualquer motivo, já sofremos por antecipação. Quando estamos lá, nossa maior satisfação é sair de lá rapidinho (o que é uma missão impossível, literalmente). O curioso, de tudo isso, é que aqui você tem qualidade de vida – mas isso não que dizer que necessariamente você melhora a qualidade da (sua) vida.

A tendência é você ficar em casa, no seu clube particular. Ir a qualquer lugar implica em pegar o carro, pois só para chegar à portaria do condomínio são quase 2 quilômetros. Você acaba andando pouco ou muito menos do que seria desejável. E você acaba engordando por falta de atividade física, mesmo que se alimente pouco.

Você interage pouco com as outras pessoas daqui, conhece pouquíssima gente e, se há o lado bom de não ser incomodado ou invadido, há o lado estranho de não saber quem são as pessoas que moram ao seu lado, como soe ocorrer em São Paulo. Se você convida conhecidos para reuniões no seu clube prive, se fizer barulho demais os vizinhos reclamam na administração (exatamente como num apartamento) e logo a segurança telefona ou visita sua casa para saber in-loco o que é que está ocorrendo.  Você vai ficando naturalmente mais antissocial e afastado das pessoas.

Aqui é diferente de São Paulo, onde reina o caos urbano, as multas, a lei-seca com batidas policiais constantes, as brigas entre polícia e bandidos que geram blitz nas ruas com policiais exibindo suas metralhadores, as estradas congestionadas com excesso de caminhões andando como verdadeiros malucos… Tudo isso contribui para que você ganhe uma preguiça extraordinária para sequer pensar em sair daqui e visitar amigos fora – ou mesmo sair daqui para ir a algum lugar e simplesmente se divertir.

Depois de um ano vivendo aqui, eu e minha esposa resolvemos partir para outra Ilha. Desta vez, Ilhabela. Lá, pelo que avaliamos, será possível ter qualidade de vida e – em paralelo – aumentar a qualidade da nossa vida. Com o mar, poderemos andar mais, fazer mais atividades físicas. E Ilhabela, a despeito de ser pequena, tem dezenas de atividades possíveis. Nada é tão estruturado como aqui. Nas visitas que fizemos, vimos que as pessoas gostam de se encontrar, fazem pescarias, churrascos (de peixe), passeios. É gente que ou é caiçara ou é gente mais descolada, que resolveu ter uma vida mais sadia – passando a viver longe de cidades grandes, complicadas. E a vida é muito mais barata que na Aldeia, requerendo menos trabalho para se manter um ótimo padrão de existência. Aumentando a qualidade da vida.

Espero que a vida lá não seja unicamente uma fantasia numa nova ilha!

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