Se chegasse em casa com um lápis ou uma borracha que meus pais notassem que não me pertenciam originalmente (estou falando do antiquíssimo primário), lá vinha bronca: “Devolva isso de quem tomou! Não é seu!”. E eu devolvia, envergonhado de ter me apropriado, por engano ou desatenção, do que não era meu. Aprendi, cedo, que a gente não se apropria do que não é seu. Coisa feia!

Poucos anos depois descobri o futebol. Me apaixonei: queria ser atacante ou goleiro, tanto faz. Se, ao invés de fazer a lição de casa pudesse ir bater bola no campinho, ia bater bola. Um dia papai me procurou e me encontrou no campinho, antes de fazer os deveres de casa. Fiquei envergonhado, porque sabia que deveria estar em casa, fazendo as lições da escola. Ele pegou pesado. Muito. Me chamou de “cafajeste”. Eu tinha mais é que estudar, fazer as lições de casa, isso me levaria ao progresso futuro. Jogar bola em campinho? Coisa de cafajeste, gente que não se preocupa com seu próprio futuro. Jogador de futebol era tudo gente meio pobre e que não dava certo em outras coisas.Ser jogador era entregar os pontos e  admitir que não tinha outra opção na sociecidade.

Se meu pai tivesse vivido uns anos mais, veria que jogadores até analfabetos ganhariam fortunas jogando. Se tivesse vivido até os dias de hoje, meus pais veriam que o que compensa é roubar, se apropriar do que não é seu. E, com essa grana, comprar casas, iates, ilhas e o cacete. Ou simplesmente colocar a grana numa conta fora do Brasil, no nome de quem quer que seja, um laranja qualquer.

Eu, imbecil, devolvi lápis e borrachas. Eu, imbecil novamente, parei de jogar no campinho para não ser “cafajeste” (meu pai não imaginava que jogadores analfabetos ganhariam milhões muito em breve). Eu, imbecilíssimo, não cobrei nem recebi propina de ninguém pelo que tinha o poder de comprar (ou de aprovar as compras). Assim, cada centavo que entrou em minhas contas, na minha vida, sempre foi de uma remuneração pelos serviços prestados: salários ou serviços verdadeiramente entregues (como pessoa jurídica). Tudo tributado. Tudo legalizado. Nenhuma falcatrua.

Hoje me envergonho de ter tido uma vida honesta. Claro que culpo meus pais que me ensinaram a ter princípios éticos, que hoje não são de nenhuma serventia.

Claro que durmo bem, sem me preocupar com quaisquer consequências de meus atos e atitudes. O que não é nenhum louvor , se pensarmos que praticamente ninguém está preocupado com isso. E que todos os que roubam, locupleteiam, etc, provavelmente dormem até melhor do que eu, inacreditavelmente.

Mas confesso que estou tendo um “envergonhamento” de ter sido a minha vida toda honesto. E, claro, estou culpando meus pais por isso.

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