três de abril de oitenta e nove.

um dia me sufoca de beijos,

outro dia se transmuta em Macabéa,

e envergonhada e polida me oferece a face,

apenas a face,

nada além da face, pudica face.

 

entendo.

compreendo

e, que bom, que bom:

fico feliz por ficar triste,

pensei que era um problema meu,

ter dias em que até a face é um desmando,

é um desmando,

é não sei o que.

 

um dia que é três mas que faz catorze,

catorze meses,

um ano e dois meses.

 

catorze meses que, se somarmos todos,

não devem ter dado mais que um mês de convivência

plena.

ou possível,

ou imaginável.

 

posso contar nos dedos os dias em que estivemos

fisicamente juntos,

prá valer.

não tenho mãos, não tenho dedos,

não tenho existências,

para contar os dias em que sonhei estarmos,

podermos estar juntos.

 

pele macia.

antro de carinho.

antro de gente sensível que ama carinho.

meu carinho.

meu eu.

meu jeito de ser e não ser.

meu jeito de ser e não saber.

 

mãos carinhosas,

ninho de paz,

mantra sagrado.

que sempre escutei,

no fundo de mim.

 

e reneguei,

por tantas vezes,

por tantas vezes…

para não me desatar desse meu microcosmo,

sempre aparentemente seguro,

sempre aparentemente replausível.

 

essa mulher,

essa mulher,

com todos os emes,

us,

éles,

agás,

ês,

erres,

arre,

essa mulher:

minha paz inconfessa.

 

ela o é,

tanto,

tanto,

que tenho medo de dizê-lo,

morro de medo de dizê-lo,

por morrer de medo de sofrer,

algo que ela não diga,

que não seja o mesmo.

 

dias atrás ela me desejava.

eu tinha em mim muito mais que isso –

e jamais confessaria novamente.

 

por medos de rejeições,

ou de entrar em planos infactíveis,

ou de estar adiantando algo que não sei o que é.

sei apenas,

apenas sei,

é essa mulher,

é ela,

é ela,

é ela.

 

ela tem medo de saber que é ela.

 

como eu,

já não acredita em mais nada,!

só queremos ser Macabéa:

queremos um canto.

mesmo sem encanto,

apenas um canto,

uma prisão prá tocar o não ser,

pois ser assim é melhor não ser.

 

A teia do mundo é complexa,

a teta do mundo é convexa,

a treta do mundo é assim: Vire Macabéa e arre!

 

Não acreditamos mais em mentos,

não acreditamos mais em casas,

nem em casas nem em mentos,

nem mais em momentos.

 

Não acreditamos mais em nada,

acreditamos no nada.

Desconfiamos de tudo.

Apenas desconfiamos:

E relegamos a segundos planos,

Sem planos.

Sem desenganos,

Sem novos danos.

Sem tiranos.

 

Algo está para ocorrer:

é,

está no ar…

Não sabemos o que é,

sabemos que está!

Está escrito nas três folhas que (barra!),

no fundo nos acusam de podre.

Está escrito nas exclamações que (barra!),

nos dizem estarmos de saco cheio.

 

E não damos a face.

E não nos soltamos.

E nos prendemos em nós. Nós de nós.

 

E nos desacreditamos inclusive,

quando precisamos,

tanto,

tanto,

tanto,

um do outro,

outro do um.

 

“A barra do amor,

é que ele é meio ermo…”

 

E nos despedimos,

como velhos amigos,

companheiros,

condescendentes com o porvir:

Um dia poderá ser,

Mas já não podemos acreditar que,

Seria, no presente, ainda mais doloroso:

poria mais lenha na fogueira,

Fogueira que não se queria,

Lenha que não era precisa,

Fogo que não era prá queimar,

era só para aquecer.

 

Aí viraria, ainda mais, tudo, uma barra,

uma barra ainda maior.

Então é melhor desanuviar.

Descurtir e desamar.

 

Desacreditar.

Desconfiar de si e de tudo.

Procurar um psi-não-sei-o-quê,

Não-sei-o-que, procurar,

Procurar não se encontrar,

Não ter essa dor.

E chorar,

chorar,

dor também de não-sei-o-quê,

não-sei-o-que-falta,

sei-lá-se-me-falta-o-quê!

 

procurar um tempo num espaço,

procurar um espaço num tempo,

procurar um espaço-tempo,

um tempo-espaço…

 

o tempo caminha.

sabemos disso.

é inexorável,

implacável,

não condescendente.

 

em mim, ao menos, uma restinga ecoa, no fundo:

é possível, é possível,

algo que não sei o que é,

só sei que é possível,

mesmo não plenamente.

apenas sensitivamente,

apenas sensivelmente falando.

 

quando te vejo assim,

ainda que doa, doa,

fico feliz:

me sinto humano:

sei o quanto pesa e dói e incomoda,

esse negócio de perceber,

ter tomando o bonde errado.

 

Não é ter mudado de target, ou roteiro,

juro que não é.

É ter tomando o bonde errado.

O que é tomar o bonde certo também não sei,

também não sei.

Apenas desconfio que seja possível,

chegar a um lugar que nunca termina,

a um destino que não tem fim,

a um caleidoscópio de vida.

junto.

com você,

junto.

junto com você.

Não pela tua cabeça, muito louca,

tanto quanto a minha, muito doida,

Sim, pelo seu carinho, sua sensibilidade,

seu jeito de ser um ser.

É sonho,

é paixão???

É.

Mas. comedido como ando,

digo,

também é.

Não é apenas por.

Também por.

Sinto que você me entenderá,

me sentirá,

apenas digo isso.

É tão pouco.

É tão finito.

É tão átimo.

É tão íntimo.

É apenas a face,

para quem possui todo um corpo.

Para quem reina em todos meus átomos,

Para a soberana de todos meus átimos,

íntimos,

intrínsecos,

inexplorados,

in-qualquer-coisa, porra!

 

Te dou, te dou, todo o tempo que você precisa.

Você me dá, me dá, todo o tempo de que eu preciso.

E o que nos damos???

Sic! Acho que nos danamos,

Nós e nossos cotidianos.

 

Eu não queria trocar,

Você não queria trocar,

Quem é que queria trocar o que pelo quê?

Relações de troca?

Chega de mercenagem do dia-dia:

Vender tempo versus pão,

discos,

sonhos,

sei-lás.

 

Não quero me confessar,

pelo menos não tão assim objetivamente:

já não me suporto viver sem você.

As vezes sinto, ou desconfio, ou ouso imaginar,

que isso ocorre contigo:

e que essa é a causa mor de um nosso certo mal-estar,

Mal-estar qui,

Mal-não-estamos-juntos.

Como me dói,

como provavelmente nos dói,

pensar em estar juntos a alguém outra vez,

e possivelmente repetir,

reprisar,

esse mal-estar,

esse estar-mal,

estar-mau,

mau-estar.

 

Ah que, agora, sub-repticiamente,  ouso sussurrar:

queria ao teu lado estar,

viver,

viver,

viver,

viver,

não por falta de opção,

nem por opção,

apenas por e por sentir você,

que não sabe o tamanho,

e então vira “complicada”,

como eu,

“complicado”.

 

Que medos nos inculcaram, porra,

que medos.

Que fatídicos.

Que fatídicos somos.

Carnifaticídicos.

Homifaticídos.

Omnifaticídicos.

Tudo não dará certo, jamais.

Sermos Macabéa, o destino,

o hino do menino destino;

sofrer por antecipar ação,

deixar a dor rolar,

massacrar,

doer,

doer.

 

Dormir o sonho,

Acalentar o dormir,

Não rodar baianas.

Desacreditar de si.

Morrer por antecipar ação,

Antecipar ação de morrer.

Suicidar coração.

Matar por sentir.

Sentir prá matar.

Sentir prá nos matar.

Nos matar por sentir.

 

É isso?

É assim?

Então não precisava.

Nem três,

Nem catorze,

Nem nada.

Nada.

 

 

 

 

 

 

 

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